
A idade não serve para nada. Nós, sempre acostumados com o processo de etiquetagem, nomeamos tudo e classificamos tudo aquilo que pudemos.
Ontem tinha 25 anos, hoje estou velho porque tenho 26. Ora, poupe-me; isso mais parece um motim para um conto fantástico à la Théophile Gautier. Somos jovens demais para isso e tão velhos para aquilo... Faça isto, não faça aquilo...
Pior que esta 'pasta de repartição pública' onde separamos as pessoas pelo tempo vivido, é a ignorância do aproveitamento que é feito desses anos que passam. Compliquei? Vamos lá, eu explico. Aliás, essa é minha função mesmo...
Passei anos com colegas de escola e só depois de termos nos separado (faculdade, trabalho, e os etc. que aparecem com o tempo) tivemos a necessidade de nos reencontrar. E a relação até ficou melhor, acreditem! Não falamos mais sobre a questão 7 da prova de Física, resolvemos falar de nós mesmos. Por que o patinho é tão branco numa água tão suja?; Demos desconto aos homens que não planejam nada com antecedência; Essa construção é um pagode?; Já tomaram chocolate em Santa Tereza?; Só estou fazendo meu projeto final; Ai, tua saia é linda! Pois é, peruices, camaradagem e a vida é isso aí. Pessoas que me acompanharam por tempos. E que aos poucos reapareceram para colorir minha vida.
E na arte de ensinar, acabei aprendendo: a reconhecer tipos de naves de igreja e a saber que radio em francês é feminino como já foi em português (radiola). Conheci os vários tipos de uniforme militar e em que ocasiões são usados, bem como as várias missões do Cisne Branco e suas aventuras
around the world. Acabei gostando do barulho que as espadas fazem na esgrima e nem me importava mais com as cornetas e sirenes no meio da aula. Descobri também a fonte musical das estilistas fashionistas que nos fazem sentir umas bonequinhas! Entretanto o que mais gostei foi aprender a lidar com o processo de aquisição de conhecimento e maturação intelectual de cada um... Como as pessoas nos surpreendem quando caimos na tentação de etiquetar...
Aquele cujo nome desconheço e que nunca lerá isto, talvez foi o mais impressionante de todos: Apesar de um não saber quem o outro era, a conversa foi sobre Jô Soares, recursos midiáticos em venda de produtos, exploração do trabalho infantil... Ok, você venceu, até aí é banal. Mas eu ainda não disse que ele era alto, forte e discutiu sobre todos os tipos de balé comigo. Falamos sobre sonhos ornados de violino, bailarinas e capoeira. Os números e signos, essas bobagens também apareceram. E foi uma conversa deliciosa. Duas horinhas que não esquecerei (esqueceremos?).
Enfim, a idade só existe para você refletir o quanto já viveu e se até então tem valido a pena. Escondê-la com cremes, para quê? Cada manchinha que aparecer será bem-vinda se cada uma lembrar-me de momentos felizes e de pessoas boas que me fizeram sorrir.
p.s.: Adoro cremes, não interpretem ao pé da letra!
Tela
Operários, de Tarsila do Amaral.